Armas Brancas

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te vejo parada em frente à tabacaria do shopping
analisando com os olhinhos fechados a vitrine impossível
pensando nos jogos de xadrez e nos baralhos
nos copinhos de shot e nas quinquilharias que ficariam tão bonitas
[no aparador da sala em cima da toalhinha de crochê
na vontade

desce a escada rolante suspirosa
com duas sacolas nas mão direita
sai ao ar frio da noite sem estrelas que fazia lá fora
dilacerando o tempo com as unhas compridas e vermelhas,
como queria dilacerar
algumas vontades e ideias e pessoas

na vitrine da tabacaria
um pôster, um samurai, um harakiri
adagas, punhais e outras armas brancas
caríssimos, expostos sobre o veludo roxo

Hungry Heart

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Veja bem, não ouvimos mais Pájaro Sunrise como se não houvesse nada a fazer no amanhã que tínhamos pela frente. Estamos há centenas de quilômetros separados, eu tomando uma cerveja quente com a barba por fazer enquanto você provavelmente está jogando baralho com o pessoal, como fazíamos quase toda noite. Eu sinto falta. Da vida simples de quando cursávamos o fundamental, da facilidade em reunir todo mundo e irmos à praça, eu fazia o tereré e você a pipoca, ou vice-versa. Toda essa poesia nostálgica e à primeira vista sem importância, cotidiana naquele tempo em que havia apenas dias de sol e mantas estendidas na grama tão verde. Não estou triste, como você e o resto da galera possam pensar. É só essa saudade que me bota uma camisa-de-força de quando em vez, e eu fico preso nela, apenas lembrando. Mas meu coração, assim como a música que a gente cantava num inglês completamente não-inglês, meu coração está faminto. Fome dessas coisas que agora não passam de imagens na cabeça. Fome de voltar para o céu azul e sem nuvens, do calor refrescado com o mate trincando, que inclusive dava dor de cabeça às vezes, de tão gelado. Essa fome. Eu achava que não haveria este jejum. Mas aí ele aparece, sorrateiro e invasivo, como um pequeno câncer. Um pequeno câncer que quimioterapia alguma cura.

Guria

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Noite quente na cidade. O ônibus amarelo com destino ao Uberaba sacolejava, roncando. E eu com os fones de ouvido metido nas orelhas, escutando Jet, are you gonna be my girl. Até que se sentou ao meu lado. Cabelos, óculos, mochila, unhas e o “Daddy’s girl” tatuado no braço – todos pretos, como o céu mormacento que fazia lá fora. Tinha cara de Letícia. A blusa multicolorida que ela mesma enfeitou, com uma estampa psicodélica e um decote recortado em casa, que deixava entrever as alças do sutiã, também preto. Abriu uma edição meio velha d’A Convidada, de Simone de Beauvoir, cujas páginas eram marcadas com uma fotografia desbotada de quando ela era criança. Senti o cheiro bom e desconhecido que emanava dela e das palavras, e foi aí que reparei que ela fazia letras na federal (finalmente a greve terminara) e tinha uma aliança prateada no dedo anular da mão direita. – Você pode abrir a janela mais um pouco, por favor? Claro que eu podia. Tristemente, eu podia. Abri a janela, no que ela deu uma folheada no livro. Na primeira página, “Renata, 2005”. Ela não era Letícia. E eu desci no ponto seguinte, pedindo licença para passar e vislumbrando a fênix desenhada em suas costas. Is she gonna be my girl? Não.

Si yo a ti mintiera

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aunque yo estuviera en otras tierras
viéndote prendida en tu hogar
y tu voz no lograra romper el océano
telepáticamente estarías conmigo

no me placería mentir
reconocerías la falta de verdad al primer contacto
me cairía de rodillas
y te vería marchar con una lágrima negra
en la esquina de tu ojo izquierdo

después, en un futuro que se nos mostraría muy rápido
pocas vueltas en el reloj
atrapándole todos los recuerdos
lo único que restaría
sería la memoria de dos espectros que anduvieron a solas

buscando besos
ofrecendo abrazos
y la mentira que te hubiera contado
a torturarme por los siglos que no tienen fín

Cadência

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Quero compor um samba pra você. Um samba carioca, paulista, paranaense. Misturar sons numa rapsódia bem brasileira, porque o céu de casa sempre tem mais estrelas. Um partido-alto seguido do ritmo forte do samba corrido pra depois tudo ficar calmo outra vez, virando um choro de roda lento, e o muito, muito que te quero. E depois dormir, só ouvindo a tua respiração compassada e o som da flauta diminuindo, diminuindo…

Quadrilha

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Os tempos mudaram, Drummond.

João amava Raimundo
que amava Teresa
que amava Joaquim
que amava Maria
que amava Lili
que não amava ninguém

João foi para a Tailândia nascer Scheila Valéria
Raimundo morreu de alegria
porque Teresa largou o convento
Joaquim cortou os punhos
quando Maria ficou com a tia
da Lili, que não se casou, porque gostava de compartilhar seus dotes
com os mais necessitados

Partida

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Rabisco minhas relíquias sem esperar mais que uma tentativa de terminar o interminável. Sem despedida, como o abortamento de um feto que a gente carrega no ventre e no coração por alguns meses, ou dois anos. Tempo. As linhas do papel e da vida são demasiado tortas, motivo pelo qual precisei de uma pausa. Porque sangue parado coagula. E sangue coagulado não tem beleza nem poética. Sinto, porém (e ainda bem), que ganhei novo rumo. Inesperado, mas envolvente; cheio de surpresas, como o relicário imenso desse amor, que fez uma conjunção de planetas no pensamento e as portas se abrirem. Se permanecerão abertas, ninguém sabe. O valor de tudo não é estático, tampouco nós o somos. E, mutante, hesitante, mas com vontade, este é um recomeço.