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Noite quente na cidade. O ônibus amarelo com destino ao Uberaba sacolejava, roncando. E eu com os fones de ouvido metido nas orelhas, escutando Jet, are you gonna be my girl. Até que se sentou ao meu lado. Cabelos, óculos, mochila, unhas e o “Daddy’s girl” tatuado no braço – todos pretos, como o céu mormacento que fazia lá fora. Tinha cara de Letícia. A blusa multicolorida que ela mesma enfeitou, com uma estampa psicodélica e um decote recortado em casa, que deixava entrever as alças do sutiã, também preto. Abriu uma edição meio velha d’A Convidada, de Simone de Beauvoir, cujas páginas eram marcadas com uma fotografia desbotada de quando ela era criança. Senti o cheiro bom e desconhecido que emanava dela e das palavras, e foi aí que reparei que ela fazia letras na federal (finalmente a greve terminara) e tinha uma aliança prateada no dedo anular da mão direita. – Você pode abrir a janela mais um pouco, por favor? Claro que eu podia. Tristemente, eu podia. Abri a janela, no que ela deu uma folheada no livro. Na primeira página, “Renata, 2005”. Ela não era Letícia. E eu desci no ponto seguinte, pedindo licença para passar e vislumbrando a fênix desenhada em suas costas. Is she gonna be my girl? Não.

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