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Veja bem, não ouvimos mais Pájaro Sunrise como se não houvesse nada a fazer no amanhã que tínhamos pela frente. Estamos há centenas de quilômetros separados, eu tomando uma cerveja quente com a barba por fazer enquanto você provavelmente está jogando baralho com o pessoal, como fazíamos quase toda noite. Eu sinto falta. Da vida simples de quando cursávamos o fundamental, da facilidade em reunir todo mundo e irmos à praça, eu fazia o tereré e você a pipoca, ou vice-versa. Toda essa poesia nostálgica e à primeira vista sem importância, cotidiana naquele tempo em que havia apenas dias de sol e mantas estendidas na grama tão verde. Não estou triste, como você e o resto da galera possam pensar. É só essa saudade que me bota uma camisa-de-força de quando em vez, e eu fico preso nela, apenas lembrando. Mas meu coração, assim como a música que a gente cantava num inglês completamente não-inglês, meu coração está faminto. Fome dessas coisas que agora não passam de imagens na cabeça. Fome de voltar para o céu azul e sem nuvens, do calor refrescado com o mate trincando, que inclusive dava dor de cabeça às vezes, de tão gelado. Essa fome. Eu achava que não haveria este jejum. Mas aí ele aparece, sorrateiro e invasivo, como um pequeno câncer. Um pequeno câncer que quimioterapia alguma cura.

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